O preço do dano ambiental foi definido

Ao longo de um período de quase dois anos, encerrado em março, 11 funcionários da fabricante de cosméticos Natura, orientados por profissionais da consultoria PwC, mapearam e esmiuçaram 962 processos da extração de matérias-primas até a produção e distribuição dos mais de 2 500 produtos da empresa.

Nessa fase, o objetivo era reunir um volume significativo de informações que permitissem calcular, com o máximo de precisão, o impacto ambiental de cada uma dessas atividades.

Para mensurar os efeitos no meio ambiente dos 2,5 milhões de catálogos que chegam a cada 20 dias às mãos dos milhares de vendedoras da empresa no Brasil, foi preciso obter dados como o consumo de água da gráfica em que são impressos e o volume de gases de efeito estufa e de outros poluentes atmosféricos e hídricos liberados nesse processo, entre outros indicadores.

O levantamento serviu para que a Natura, pela primera vez, aferisse o valor — em dinheiro — do impacto provocado pela sua operação durante o ano de 2013. Resultado: um dano ambiental de 132 milhões de reais (numa extrapolação que considera o uso dos produtos pelos consumidores, essa conta sobe para 587 milhões de reais).

A companhia chegou a esse número ao estimar — e não há nada de trivial nessa conta — quanto suas intervenções na natureza prejudicam de diferentes maneiras o bem-estar da população e, em última instância, representam custos financeiros para a sociedade.

Os exemplos vão desde gastos com saúde decorrentes da poluição atmosférica e hídrica gerada pela empresa até a desvalorização imobiliária provocada na região em que há um lixão.

A Natura é a primeira empresa no Brasil e do setor de cosméticos no mundo a fazer essa conta e torná-la pública. Calcular a tal “pegada ambiental” não é mais novidade. O desafio, agora, é estimar um preço ao dano causado.

A Natura seguiu os passos da pioneira Puma, marca de artigos esportivos que fomentou o desenvolvimento da metodologia com a PwC e a Trucost, consultoria inglesa, e se dispôs a testá-la em 2011. Na época, os executivos da companhia fizeram o cálculo para toda a sua cadeia de produção e declararam ter provocado danos à natureza no valor de 145 milhões de euros por ano.

De lá para cá, o grupo francês Kering, ao qual a Puma pertence, passou a usar a metodologia internamente para calcular o impacto ambiental em dinheiro de toda a sua operação — 19 marcas esportivas e de luxo que incluem nomes como Gucci e Saint Laurent. No ano passado, os primeiros balanços do grupo, relativos aos anos de 2013 e 2014, foram divulgados e, em junho, o de 2015.

Este último documento revela que o grupo Kering, que fatura mais de 11 bilhões de euros, foi responsável por um dano ambiental de 811 milhões de euros.

Não há dados precisos sobre o número de empresas mundo afora que tenham divulgado o cálculo de seus impactos, mas especialistas afirmam que o grupo ainda é restrito e inclui nomes como o da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk e da companhia de água britânica Yorkshire Water.

“A empresa deve se preocupar menos com o número absoluto e mais em ver onde, em sua operação, estão os principais impactos e definir ações para minimizá-los”, afirma Carlos Rossin, diretor da PwC. Por enquanto, alardear esse cálculo é antes de mais nada uma provocação. Os executivos dessas empresas defendem que a economia e o mercado devem valorizar e atribuir um preço ao chamado “capital natural”.

“Ao fazer essa conta, queremos estimular o desenvolvimento de uma nova economia, na qual o valor real dos produtos e dos serviços incorpore, de fato, os impactos que eles provocam em todas as dimensões”, afirma Guilherme Leal, um dos sócios fundadores da Natura.
Há 30 anos, a discussão de que a natureza e seus benefícios deveriam ser valorados se restringia ao meio acadêmico e a ambientalistas.

Em 1997, o pesquisador americano Robert Costanza, um dos mais respeitados especialistas no tema, calculou pela primeira vez o preço dos bens e serviços gratuitos que impulsionam a economia mundial: 33 trilhões de dólares. Entraram na conta 17 benefícios, como polinização de plantas, oferta de água e uso recreativo de cachoeiras e praias.

Em 2014, Costanza atualizou a cifra para 72 trilhões de dólares, número tão elevado que, na prática, acaba tendo pouca utilidade. Mas as empresas estão se mobilizando com propósitos palpáveis. Em junho, dezenas delas, como a Dow e a Coca-Cola, reuniram-se em Londres para o lançamento do Protocolo do Capital Natural, tutorial com princípios de capital natural aplicado aos negócios.

A ideia é fazer as empresas entenderem sua relação com os bens naturais e, quem sabe, estimulá-las a fazer a própria contabilidade. Ao tornar público o valor do impacto que geram, essas empresas não pretendem apenas instigar uma discussão teó­rica. O objetivo é usar os dados para gerir riscos e usá-los como referência para melhorar ao longo dos anos.

A Kering sabe hoje que 73% de seus danos ao meio ambiente ocorrem nas etapas de extração e de processamento das matérias-primas. Esses impactos são, em grande parte, mudanças negativas que a demanda por esses insumos desencadeiam em áreas de vegetação nativa em diferentes biomas.

O grupo consome toneladas de cashmere, lã produzida por uma espécie de cabra que vive, principalmente, nas estepes, uma vegetação rasteira comum nas regiões centrais da Ásia. Estimativas da consultoria Bain & Company revelam que os produtos desse material respondem por 6% dos 60 bilhões de euros que o mercado de roupas de luxo movimenta hoje.

O problema é que a demanda crescente de cashmere vem impulsionando um crescimento exagerado dos rebanhos, que têm colocado essas paisagens sob sério risco de desertificação. Além disso, alterações climáticas, como invernos ainda mais rigorosos, têm contribuído para o processo e afetado o desenvolvimento dos animais, o que prejudica a oferta de lã.

“Para garantir o insumo no futuro, estamos tentando influenciar a maneira como ele é produzido”, diz Michael Beutler, diretor de sustentabilidade do grupo Kering. Na Mongólia, a empresa trabalha com populações nômades para tornar suas práticas de criação de cabras menos nocivas ao meio ambiente e mais eficientes.

Emissões

Na Natura, o cálculo revelou que 55% dos impactos ambientais provocados pela empresa também acontecem nas etapas de extração, processamento e transporte das matérias-primas, e esses danos se traduzem, sobretudo, em emissões de gases causadores do efeito estufa.

Muitos dos insumos usados nos cosméticos são de origem vegetal e, por isso, menos intensivos sob a ótica das emissões, mas a empresa ainda é refém de uma série de matérias-primas sintéticas de origem fóssil. Por ora, os executivos da empresa ainda estão estudando o que fazer com os muitos dados que vieram à tona com o cálculo e se preparando para entregar a mesma conta relativa aos anos de 2014 e 2015.

O exercício matemático já revelou que, se ao longo dos últimos anos a Natura não tivesse conduzido vários esforços para reduzir sua pegada de carbono, com medidas como a adoção de plástico verde nas embalagens e de álcool orgânico nas fórmulas, o tamanho do estrago teria sido 24% maior — 164 milhões de reais. Não são números bonitos. Mas sem conhecer a realidade é impossível transformá-la.

 

(Fonte: http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1118/noticias/o-dano-ambiental-agora-tem-preco-definido)

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