Bitucas de cigarro, tampas de garrafa, canudinhos: os 10 itens mais encontrados nas praias do Brasil pela ONU

ONU Meio Ambiente realizou a campanha #MaresLimpos, que reuniu voluntários em ações de limpeza pelo país. Eles apresentaram um resumo do que foi encontrado no litoral de 10 estados brasileiros.

ONU Meio Ambiente recolheu 49.994 bitucas de cigarro no litoral do Brasil — Foto: sulox32/Pixabay

ONU Meio Ambiente recolheu 49.994 bitucas de cigarro no litoral do Brasil — Foto: sulox32/Pixabay

Foram mais de 23,7 toneladas de resíduos recolhidos por 2,8 mil voluntários mobilizados pela Organização das Nações Unidas (ONU) Meio Ambiente no Brasil. Foram 124 km percorridos em praias de 10 estados brasileiros.

O projeto é uma mobilização da organização internacional no país. A campanha se chama #MaresLimpos e cria ações de limpeza no litoral do Brasil. Veja os resíduos recolhidos em maior quantidade na primeira parte da operação, em 2017:

  1. 49.994 bitucas de cigarro
  2. 9.938 garrafas pet
  3. 9.938 canudos
  4. 7.041 garrafas plásticas
  5. 6.782 sacolas plásticas
  6. 5.590 embalagens plásticas
  7. 4.840 copos e pratos plásticos
  8. 2.409 garrafas de vidro
  9. 2.100 pedaços de isopor
  10. 1.313 talheres plásticos

O material foi recolhido por grupos de Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins.

O resultado mostra que os produtos encontrados são majoritariamente de plástico. A ONU Meio Ambiente lembra que entre 60% e 90% do lixo encontrado nos mares é composto por diferentes tipos de plásticos, em diferentes tamanhos e estágios de degradação. Algumas estimativas apontam que em 2050 teremos mais plásticos do que peixes e que 99% das aves marinhas terão ingerido o material.

Sobre o produto mais encontrado, as bitucas de cigarro, além de poluir o oceano, é o principal causador do câncer que mais mata no mundo: o de pulmão. Um relatório da Organização Mundial da Saúde mostra que, apenas neste ano, morrerão 9,6 milhões de pessoas devido à doença.

Brasil tem quase 3 mil lixões em 1.600 cidades

Prazo para que todos os municípios dessem destino correto ao lixo venceu há 4 anos, de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos

O Brasil tem quase 3 mil lixões funcionando em 1.600 cidades, segundo relatório da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Por lei, todos os lixões do Brasil deveriam ter sido fechados até 2014, prazo dado pela Política Nacional dos Resíduos Sólidos.

O levantamento da Abrelpe mostra que, de 2016 para 2017, o despejo inadequado do lixo aumentou 3%. A produção de lixo no Brasil também aumentou no ano passado. Cada brasileiro gerou 378 kg de resíduos no ano, um volume que daria para cobrir um campo e meio de futebol.

Junto com esse aumento do lixo produzido, também subiu a quantidade de resíduos que vão parar em lixões, com impactos negativos para o meio ambiente e para a saúde pública. Estudo afirma que o país gasta R$ 3 bilhões por ano com o tratamento de saúde de pessoas que ficaram doentes por causa da contaminação provocada pelos lixões.

“Os impactos dos lixões, que contaminam a água, contaminam o solo e poluem o ar, afetam diretamente a saúde de 95 milhões de pessoas, sejam as que vivem no entorno desses lixões, muito próximos, ou aquelas que consomem ou a água ou os alimentos produzidos nessas áreas que estão contaminadas, trazendo uma série de problemas de saúde”, afirma Carlos Silva Filho, diretor-presidente da Abrelpe.

Segundo os dados da Abrelpe, 90% das cidades brasileiras têm coleta de lixo, mas só 59% usam aterros adequados.

O Ministério do Meio Ambiente disse que o maior impedimento para tratar o lixo é a falta de recursos dos municípios e sugere medidas como a cobrança de uma taxa de lixo, o agrupamento das cidades em consórcios para ratear as despesas.

Disse ainda que existem ações previstas para ajudar os municípios nos Ministérios da Saúde e das Cidades, mas não há perspectivas de que os recursos federais sejam suficientes para suprir as demandas.

Dados do IBGE

Quase metade das 5.570 cidades brasileiras não tem atualmente um plano integrado para o manejo do lixo, segundo o Perfil dos Municípios Brasileiros (Munic 2017), divulgado Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em julho deste ano.

Segundo a legislação brasileira, o plano integrado tem 19 itens obrigatórios que incluem metas de redução da quantidade de rejeitos por meio de reciclagem e reutilização de materiais, diagnóstico da situação dos resíduos sólidos no município, além de regras para transporte e outras etapas do gerenciamento do lixo e limpeza urbana.

O estudo do IBGE apontou que a existência de um plano é mais frequente nas cidades mais populosas. Nos municípios com mais de 500 mil habitantes, 83,3% possuem um plano de manejo do lixo. Naquelas entre 5.001 e 10 mil habitantes, são 49,1%.

Em uma análise por população, o IBGE identificou que nas cidades com mais de 50 mil habitantes, em termos relativos, ocorrem mais impactos ambientais causados por falta de saneamento básico e destinação inadequada de esgoto doméstico.

Mutirão de limpeza recolhe de sacola plástica a aparelho de telefone na Praia Vermelha, Zona Sul do Rio

Grupos se dividiram na faixa de areia e mergulhadores e pessoas de stand paddle fizeram a limpeza no mar. Dos 30 kg de lixo recolhidos, 7 kg estavam na água.

Um mutirão de limpeza realizado na Praia Vermelha, Zona Sul do Rio, na manhã deste domingo (16), retirou cerca de 30 kg de lixo na areia e no mar. Entre o material coletado havia até aparelho de telefone fixo.

Grupos se dividiram na faixa de areia e mergulhadores e pessoas de stand paddle fizeram a limpeza no mar. Do total de lixo coletado, 7 kg estavam na água. Foram encontrados os mais diversos tipos de objetos, como escova de dente, celular, aparelho de telefone fixo, vários brinquedos, material de construção, chaves de fenda, velas de ignição de carro usadas como chumbada para pesca, linhas de pesca e sacolas plásticas.

Participaram da ação equipes do projeto Meros do Brasil, projeto Verde Mar, Secretaria de Meio Ambiente, projeto Standupet (stand up paddle), Monumento Natural dos Morros do Pão de Açúcar e da Urca e do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores do Departamento de Oceanografia da Uerj.

Mutirão de limpeza recolhe lixo na Praia Vermelha

De acordo com os organizadores do mutirão, setembro foi escolhido como o mês internacional dos mutirões de limpeza de praia. O objetivo das ações é conscientizar a sociedade sobre o descarte irregular de resíduos sólidos urbanos que vão parar nos rios e oceanos.

No sábado (15), voluntários participaram da campanha Mares Limpos, da ONU/Meio Ambiente, em praias de vários estados do país. No Rio, grupos de limpeza vão percorreram a orla da Zona Sul para recolher o lixo da areia e deixar uma mensagem importante: se continuarmos com o descarte irregular, em poucos anos os oceanos terão mais plásticos do que peixes.

Voluntários participam de mutirão para limpeza da Praia Vermelha, na Urca, Zona Sul do Rio — Foto: DivulgaçãoVoluntários participam de mutirão para limpeza da Praia Vermelha, na Urca, Zona Sul do Rio — Foto: Divulgação

Voluntários participam de mutirão para limpeza da Praia Vermelha, na Urca, Zona Sul do Rio — Foto: Divulgação

Voluntários encontraram até mesmo um aparelho de telefone fixo em meio ao lixo recolhido na Praia Vermelha  — Foto: Divulgação/Projeto Meros do BrasilVoluntários encontraram até mesmo um aparelho de telefone fixo em meio ao lixo recolhido na Praia Vermelha  — Foto: Divulgação/Projeto Meros do Brasil

Voluntários encontraram até mesmo um aparelho de telefone fixo em meio ao lixo recolhido na Praia Vermelha — Foto: Divulgação/Projeto Meros do Brasil

Voluntários separam o lixo recolhido na Praia Vermelha — Foto: Divulgação/Projeto Meros do BrasilVoluntários separam o lixo recolhido na Praia Vermelha — Foto: Divulgação/Projeto Meros do Brasil

Voluntários separam o lixo recolhido na Praia Vermelha — Foto: Divulgação/Projeto Meros do Brasil

Empresa que não coletar embalagem ficará sem licenciamento ambiental em SP

Empresa que não coletar embalagem ficará sem licenciamento ambiental em SP Em outubro, estado passará a exigir que companhias façam logística reversa.

Cerca de 20 mil empresas de São Paulo não informam à Cetesb (companhia ambiental do estado) se têm uma operação de logística reversa, o que pode gerar problemas a partir de outubro deste ano. Uma regra, que passará a valer em um mês, vai condicionar a obtenção de licença ambiental por uma empresa a informações sobre a coleta do lixo resultante de seus produtos ou embalagens e à sua destinação correta. A obrigação de ter um plano de logística reversa existe desde 2010, mas São Paulo será o primeiro estado a penalizar quem não a cumpre.

De cerca de 30 mil companhias que atuam em São Paulo com esse perfil, apenas aproximadamente 10 mil informaram à Cetesb sobre suas operações. “Essas empresas não devem necessariamente mostrar seu plano em outubro, mas, sim, no momento em que forem renovar sua licença”, afirma Fernanda Stefanelo, advogada ambiental do Demarest.

Não está claro qual será a pena para as que não conseguirem fazer isso, diz Werner Grau, sócio do Pinheiro Neto. “Empreendimentos que estão no estado há décadas não vão poder existir?” A expectativa é que haja uma progressão de penalidade: advertência, multa, embargo e suspensão de atividades, segundo o advogado. Algumas das exigências que a Cetesb impôs, como a obrigatoriedade de recolhimento de resíduos derivados de produtos como pilhas e óleo lubrificante em todos os municípios do estado, não são exequíveis de imediato, diz. “A Cetesb precisa criar regras de transição. Se não houver prazos e metas factíveis, chegaremos a um ponto de ruptura, e o cenário de briga na Justiça é o pior possível”, acrescenta Grau. Resíduos que devem ser coletados após o consumo

McDonald’s abre restaurante do futuro com visual de Apple Store

Nova loja tem paredes de aço, grandes janelas de vidro, quiosques de autoatendimento, serviço de mesa e pedido pelo smartphone. Paredes de aço e grandes janelas de vidro são a nova cara dos restaurantes do McDonald’s, pelo menos nos Estados Unidos. Com visual moderno e minimalista semelhante a uma loja da Apple, os restaurantes tem quiosques de autoatendimento, serviço de mesa e pedido pelo smartphone.

A inauguração mais recente é uma unidade em Chicago. “Estamos orgulhosos de abrir as portas desse restaurante flagship, que simboliza como estamos construindo um McDonald’s melhor para nossos consumidores e comunidades onde elas estão”, diz o presidente Steve Easterbrook, em comunicado.

A inauguração dessa unidade é o empenho mais recente da rede de fast food no seu projeto “Experiência do Futuro”. Os novos restaurantes são projetados “para melhorar drasticamente a experiência do cliente com mais conveniência, personalização e escolha”, diz a empresa em comunicado.

A ideia não é apenas modernizar o ambiente e dar mais opções ao consumidor. De acordo com um relatório do BTG, obtido pelo Business Insider, o McDonald’s poderia recuperar 2,7 bilhões de dólares em vendas perdidas.

O plano da companhia é renovar a maior parte dos 5.000 restaurantes da empresa nos Estados Unidos, até 2020. Para isso, o investimento será de 6 bilhões de dólares. O maior gasto será no Texas, de 448 milhões de dólares nos 840 restaurantes que a empresa tem no estado.

A ideia não é apenas modernizar o ambiente e dar mais opções ao consumidor. De acordo com um relatório do BTG, obtido pelo Business Insider, o McDonald’s poderia recuperar 2,7 bilhões de dólares em vendas perdidas.

O plano da companhia é renovar a maior parte dos 5.000 restaurantes da empresa nos Estados Unidos, até 2020. Para isso, o investimento será de 6 bilhões de dólares. O maior gasto será no Texas, de 448 milhões de dólares nos 840 restaurantes que a empresa tem no estado.

Detalhes

Com mais de 1.700 metros quadrados, o novo restaurante de Chicago também conta com um McCafé nas suas dependências e aceita drive thru. Aberto no dia 9 de agosto, funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana.

O design incorpora elementos sustentáveis, como a plantação de mais de 70 árvores, vegetação no teto e um jardim. O local tem painéis de energia solar, iluminação de LED e equipamentos de cozinha que economizam energia.

O restaurante foi projetado pela empresa de arquitetura Ross Barney Architects. Já o interior é assinado por Landini Associates, sediada em Sydney.

Primeira pilha alcalina feita com produtos reciclados é lançada no Brasil

A Energizer — fabricante de baterias, lanternas e faróis — anunciou o lançamento de seu novo produto. A denominada Energizer EcoAdvanced é uma pilha alcalina feita a partir da reutilização de partes de outras. Sendo assim, seu processo de fabricação acaba gerando um impacto menor para o planeta.

Segundo a empresa, a novidade não é apenas a forma como a pilha é feita, mas a durabilidade dela também, pois o dispositivo aguenta mais tempo de energia do que as convencionais. A desenvolvedora destacou que, analisando algumas pesquisas feitas com consumidores, foi possível constatar que as pessoas dão preferência a produtos que prezam pela consciência ecológica.

A Eco Advanced é a primeira pilha alcalina reciclável do mundo no mercado brasileiro. Já é possível encontrá-la (disponível nos modelos AA e AAA) nos principais comércios do país.

 

 

Evolução da poluição em São Paulo é revelada pelas árvores

De acordo com pesquisa da USP e Unicamp, a concentração de elementos químicos em cascas de árvores pode mostrar a variação desses elementos na atmosfera

Ao caminhar ou trafegar pelas vias mais arborizadas de São Paulo há uma grande chance de avistar ou passar ao lado de uma tipuana (Tipuana tipu), árvore de porte avantajado e com copa ampla e densa, a mais comum na cidade.

Originária da Bolívia, a tipuana começou a ser plantada em São Paulo na primeira metade do século 20. Além de prover sombra e uma série de outros benefícios ambientais, também pode revelar a evolução da poluição na cidade.

Pesquisadores do Instituto de Biociências e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com colegas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), têm utilizado a tipuana como marcadora dos níveis de poluição da cidade por metais pesados e outros elementos químicos.

Ao analisar a composição química dos anéis de crescimento – círculos concêntricos na parte interna do tronco – e de cascas de exemplares da árvore na capital paulista, os pesquisadores constataram redução na poluição por cádmio, cobre, níquel e chumbo na zona oeste de São Paulo nos últimos 30 anos.

Com resultados publicados na revista Environmental Pollution, a pesquisa teve apoio da FAPESP por meio de um Projeto Temático, um Auxílio à Pesquisa – Regular e uma Bolsa de Pós-Doutorado.

Os pesquisadores do IB e da FMUSP começaram a avaliar nos últimos anos a possibilidade de analisar a composição química das cascas e dos anéis de crescimento de árvores a fim de reconstituir os níveis de poluição ambiental de São Paulo no longo prazo. Para isso, três espécies de árvores mais comuns na cidade foram selecionadas: o alfeneiro (Ligustrum sp), a sibipiruna (Caesalpinia pluviosa) e a tipuana.

Essa última, que foi introduzida em São Paulo principalmente pela Companhia City – responsável pela criação de bairros planejados e arborizados na cidade, como o Jardim Europa, Pacaembu e Alto de Pinheiros –, revelou-se a melhor para realizar estudos nessa área, denominada dendroquímica.

“A tipuana se mostrou a melhor espécie de árvore para fazermos análises químicas tanto de seus anéis de crescimento anual como das cascas para avaliar a poluição ambiental da cidade”, disse Giuliano Maselli Locosselli, pós-doutorando no IB-USP e primeiro autor do estudo, à Agência FAPESP.

A árvore, que é uma das que mais caem em São Paulo e por isso começou a ser substituída por espécies nativas, absorve pelas raízes elementos químicos, como metais pesados, presentes na atmosfera e carreados para o solo pela água das chuvas. Esses compostos são transportados junto com a seiva pelos vasos da planta e ficam armazenados em sua madeira, nos anéis de crescimento, à medida que ela cresce.

Cada um desse anéis representa um ano de vida da planta, sendo os maiores os mais recentes e os menores (mais internos) os mais antigos. Ao analisar a composição química, pode-se medir a concentração de metais pesados no solo de um determinado ambiente no ano em que o anel foi formado. E, ao comparar as concentrações dos anéis, avaliar como a presença desses elementos químicos variou em uma escala de décadas.

“Se uma árvore tem 50 anos, por exemplo, ela contará a história da poluição na cidade nesse período”, disse Locosselli.

Já as cascas da tipuana permitem avaliar a concentração de elementos químicos presentes na atmosfera e que se depositaram passivamente nessa parte externa do tronco da árvore.

Ao medir a concentração de elementos químicos – como metais pesados – de amostras de cascas de diversas árvores espalhadas por São Paulo, por exemplo, consegue-se avaliar a variação espacial desses elementos químicos na atmosfera da cidade em escala de anos.

“Como a casca é uma parte mais simples de se obter da planta do que os anéis de crescimento anual e o custo das análises químicas delas também é menor, é possível analisar as cascas de diversas árvores e cobrir uma grande área. Isso permite ver como a poluição por metais pesados e outros elementos químicos se distribui por toda a cidade”, disse Locosselli.

Diminuição da concentração

Os pesquisadores realizaram um estudo inicial em que analisaram a distribuição de cádmio, cobre, mercúrio, níquel, sódio, chumbo e zinco em anéis de duas espécimes de tipuana plantadas no jardim da Faculdade de Medicina da USP, situada na zona oeste da cidade. O objetivo do estudo foi avaliar as mudanças temporais nos níveis de poluição por metais pesados nessa região da cidade.

Para obter amostras dos anéis de crescimento anual das duas árvores, com 35 anos de idade, foi usada uma sonda Pressler, também conhecida como trado de incremento. O instrumento, semelhante à broca de uma furadeira, mas com o interior oco, é capaz de extrair uma amostra cilíndrica do interior da árvore, que mostra todos seus anéis de crescimento anual, da casca até o centro da planta, sem prejudicá-la. “É como se fosse uma biópsia da árvore”, disse Locosselli.

As amostras, de 15 milímetros, dos anéis de crescimento anual das árvores foram encaminhadas para o professor Marco Aurelio Zezzi Arruda, do Instituto de Química da Unicamp. Por meio de uma técnica, chamada ablação a laser acoplada a espectrometria de massas, foi possível escanear e gerar imagens das amostras a partir de um software e analisar a distribuição dos elementos químicos nos anéis de crescimento anual das árvores.

A partir dessas imagens, os pesquisadores definiram quais eram as células de interesse e fizeram análises contínuas de todos os anéis de crescimento anual para determinar as concentrações dos elementos químicos em cada ano de vida das plantas.

As análises dos dados indicaram que houve redução da poluição por cádmio, cobre, níquel e chumbo nas últimas três décadas na região onde estão situadas as espécimes de tipuana analisadas. A redução dos níveis de sódio e zinco foi menos significativa.

“A diminuição dos níveis de chumbo pode ser atribuída à eliminação gradual desse elemento químico na composição da gasolina, enquanto a tendência decrescente da poluição por cádmio, cobre e níquel provavelmente está relacionada ao aumento da eficiência dos veículos e à desindustrialização de São Paulo”, disse Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP e um dos autores do estudo, à Agência FAPESP.

O chumbo tetraetila era usado na composição da gasolina comum como aditivo com o intuito de melhorar o desempenho do motor dos automóveis abastecidos com o combustível e reduzir seu desgaste.

A utilização do composto liberava chumbo na fumaça do escapamento dos veículos – o que gerava diversos efeitos danosos à saúde e fez com que o Brasil proibisse o chumbo tetraetila de ser adicionado à gasolina nos veículos terrestres no país a partir de 1988.

Já as maiores fontes de cádmio são a indústria eletroeletrônica, além de pigmentos de esmaltes, tintas têxteis, baterias, fotografia, litografia e pirotecnia, fabricação de plásticos, de semicondutores, células solares, queima de combustível, lixo urbano, tratamento da borracha e galvanoplastia. Por sua vez, o cobre tem como principais fontes de emissão as queimas de resíduos urbanos e industriais, fundições de ligas metálicas e pesticidas.

“Como São Paulo tem passado por período de desindustrialização há algumas décadas, diminuiu a emissão desses elementos químicos. Com isso ocorreu uma redução na concentração desses metais em São Paulo”, disse Locosselli.

Importância do Brasil na biodiversidade mundial é maior do que se pensava, dizem cientistas

Peixes em coral em Laje de Santos, São PauloDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionRecifes de coral cobrem apenas 0,1% dos oceanos, mas são responsáveis pela sobrevivência de mais de 200 milhões de pessoas

Quase um quarto de todos os peixes de água doce do mundo – mais precisamente 23% – estão nos rios brasileiros. Assim como 16% das aves do planeta, 12% dos mamíferos e 15% de todas as espécies de animais e plantas.

Esses números estão sendo compilados pela primeira vez por cientistasbrasileiros após a publicação do estudo O futuro dos ecossistemas tropicais hiperdiversos, divulgado no final de julho na revista Nature.

“Já imaginávamos que o Brasil tinha essa quantidade de espécies, mas os números exatos estavam espalhados em bases de dados muito diferentes pelo mundo. É uma combinação de dados única”, disse à BBC News Brasil a bióloga Joice Ferreira, da Embrapa Amazônia Oriental, que participou do estudo e lidera os esforços para compilar os dados brasileiros.

  • Como fraudes de madeireiras ameaçam a sobrevivência do ipê na Amazônia
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“A condição do Brasil é muito única, mas, nas discussões políticas, o papel que o país tem na biodiversidade mundial é pouco considerável. Precisamos de um conjunto de políticas muito mais fortes e atuantes para lidar com essa biodiversidade.”

O estudo, realizado por um grupo de 17 cientistas, incluindo quatro brasileiros, é a maior revisão de dados sobre a biodiversidade nos trópicos, segundo o biólogo marinho, zoólogo e botânico britânico Jos Barlow, da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, que liderou a pesquisa.

“Sempre soubemos que a região era importante. Mas encontramos números surpreendentes. Mostramos, por exemplo, que 91% de todos os pássaros do mundo passam ao menos parte de suas vidas nos trópicos. Isso é incrível”, disse à BBC News Brasil.

“Eu também fiquei impressionado com o fato de o Brasil ser responsável por um quarto dos peixes de água doce. Geralmente, esses ecossistemas são ignorados.”

Floresta amazônicaDireito de imagemADAM RONAN
Image captionOs ecossistemas tropicais – florestas, savanas, rios e lagos e recifes de coral – concentram mais de três quartos das espécies do planeta

Perda acelerada de espécies tropicais

No estudo, a equipe internacional de cientistas alerta para o fato de que a falta de ações de conservação e monitoramento dos ecossistemas tropicais pode causar, em breve, uma perda sem precedentes de espécies – muitas das quais sequer são conhecidas.

Os ecossistemas tropicais – florestas, savanas, lagos e rios e recifes de coral – cobrem 40% do planeta, mas abrigam mais de três quartos (78%) de todas as espécies.

Além disso, desses ecossistemas dependem as vidas de centenas de milhares de pessoas. Os recifes de coral, por exemplo, são responsáveis pela subsistência e pela proteção de mais de 200 milhões, apesar de só cobrirem 0,1% dos oceanos.

Em todos esses locais, dizem os pesquisadores, a flora e a fauna sofrem a “ameaça dupla” das atividades humanas, como o desmatamento e a pesca predatória em excesso, e de ondas cada vez mais frequentes de calor, causadas pela mudança climática.”A maior parte dos cientistas foca em apenas um bioma. Mas nós mostramos que todos os ecossistemas tropicais estão sofrendo dos mesmos problemas”, diz Barlow.

Sapo amarelo brasileiroDireito de imagemALEXANDER LEES
Image captionEspécies nos trópicos podem ser perdidas em breve por causa da atividade humana e do aquecimento global, mas são menos ‘lembradas’ do que as de regiões polares, segundo pesquisadores

“Quando falamos em mudança climática, falamos muito do seu impacto nas regiões polares, mas isso está devastando os trópicos. E o mundo parece ter dado um passo atrás no que se refere ao compromisso com ações relacionadas ao meio ambiente.”

Para Joice Ferreira, da Embrapa, também é preciso considerar que a maior parte dos países tropicais são regiões mais pobres, com menor capacidade de pesquisa.

“Nossa região alimenta todas as outras do mundo com recursos naturais, mas a maior parte das pesquisas sobre os trópicos é liderada por países desenvolvidos”, afirma.

“Isso nos coloca numa situação de vulnerabilidade, porque temos uma capacidade menor de resposta às mudanças climáticas. Estamos colocando em risco um número muito grande de espécies.”

Dificuldade para catalogar dados no Brasil

Segundo Barlow, um dos principais problemas das regiões tropicais é a falta de investimento na coleta e na catalogação de espécies. Ou seja, sequer sabemos tudo o que está em perigo com o aumento das temperaturas globais.

Atualmente, cerca de 20 mil novas espécies são descobertas no mundo a cada ano. Mas, nesse ritmo, os pesquisadores estimam que seriam necessários pelo menos 300 anos para catalogar toda a biodiversidade do planeta.

Coruja-buraqueiraDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionO Brasil tem 16% das aves de todo o planeta; 91% das aves do mundo passa ao menos parte da vida nos trópicos

“Descrever novas espécies tem que ser um trabalho colaborativo global, com pesquisadores tendo acessos a recursos e espécimes em muitos museus e coleções. Mas tudo isso é dificultado pela burocracia excessiva – algo que o Brasil conhece muito bem”, diz o britânico.

Ferreira diz que ainda falta no Brasil um programa “abrangente e integrado de avaliação da biodiversidade”. A maior parte das pesquisas, ela afirma, são feitas em locais de fácil acesso – como a beira dos rios e as margens de estradas – e na região Sudeste, onde se concentra a maior parte dos pesquisadores.

“Tentamos aos trancos e barrancos cumprir as metas internacionais, mas é tudo muito grosseiro e genérico. Num país muito menor como o Reino Unido, se conhece a fauna e a flora de cada quilômetro do país”, compara.

“Precisamos fazer programas de monitoramento amplo em todos os biomas brasileiros e programas de conservação nos outros biomas, além da Amazônia. Mas o que vemos é justamente o contrário disso, um corte massivo de financiamento para ciência e tecnologia, especialmente nos recursos humanos.”

Em 2014, o governo brasileiro criou o Sistema de Informação Sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr), uma espécie de atlas das espécies do país, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC). A iniciativa, no entanto, avança a passos lentos na tarefa de catalogar apenas o que já se sabe sobre a fauna e a flora nativas.

“Nunca chegamos numa amostragem de toda a biodiversidade espacial. O território brasileiro é grande demais, nunca tivemos investimento com regularidade suficiente e os programas de pesquisa nunca se preocuparam em traçar uma estratégia que abrangesse o território todo”, disse à BBC News Brasil a bióloga Andrea Nunes, coordenadora de biomas do MCTIC e diretora geral do SiBBr.

Onça brasileiraDireito de imagemLEONARDO MERÇON | GETTY IMAGES
Image captionSistema de catalogação da biodiversidade brasileira tem cerca de 15 milhões de registros, mas falta financiamento e cultura de compartilhamento de dados, diz bióloga

O principal obstáculo encontrado pelo sistema é justamente a dificuldade de convencer os pesquisadores a registrarem, uma por uma, todas as espécies que já pesquisaram.

“O Brasil não tem cultura de compartilhamento de dados. Esse problema começa pela própria academia, que usa dados de biodiversidade para a publicação de teses de mestrado, doutorado, e quase joga esses dados fora. Muitos pesquisadores acham que faz parte desse trabalho deles compartilhar esses dados primários”, afirma a diretora.

“Além disso, o MCTIC apoiava as instituições de pesquisa pagando bolsistas para estruturar os dados e alimentar o sistema. Há cerca de um ano e meio, não podemos mais oferecer essa ajuda.”

Nunes estima que, atualmente, o SiBBr tenha cerca de 15 milhões de espécies em sua base de dados. Mas só nas seis principais coleções do Brasil – ou seja, nas instituições como a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Museu de Zoologia de São Paulo – pode haver até 40 milhões de registros.

“Imagine que essas coleções ainda não foram completamente catalogadas no nosso sistema, e que o Brasil tem mais de 300 coleções do tipo. Ninguém sabe o número total de registros de espécies que temos. Até porque pode haver muita coisa duplicada”, diz.

Poluição do ar: o surpreendente fator causador de diabetes tipo 2

Má alimentação, falta de exercício, obesidade e até a hereditariedade são fatores de risco conhecidos do diabetes tipo 2. E a fumaça liberada pelo escapamento dos automóveis?

Uma equipe da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, conduziu um estudo, o maior realizado até hoje, relacionando a doença com as emissões de dióxido de carbono (CO2).

De acordo com a pesquisa, publicada na revista científica The Lancet Planetary Health, 14% dos casos de diabetes registrados no mundo em 2016 estavam relacionados a partículas poluentes na atmosfera.

Ou seja, 3,2 milhões de pessoas contraíram diabetes tipo 2 devido à poluição do ar. Apenas nos Estados Unidos, observa o estudo, a contaminação atmosférica levou ao surgimento de 150 mil novos casos em 2016.

Cano de descargaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionNos Estados Unidos, a principal fonte de partículas PM2.5 é a fumaça liberada pelo cano de descarga dos automóveis

“Nossa pesquisa mostra um vínculo significativo entre a poluição do ar e o diabetes em todo o mundo”, disse Ziyad Al Aly, professor de medicina da Universidade de Washington e principal autor da pesquisa.

Mas de onde vem essa conexão?

Partículas minúsculas

Os cientistas examinaram uma partícula chamada PM2.5, cerca de 30 vezes menor que um fio de cabelo humano. Elas são emitidas pela maioria das fábricas ao redor do mundo e também emanam de carros e caminhões de carga nos Estados Unidos.

O tamanho é exatamente o que torna a partícula mais perigosa. Carregada com metais tóxicos, a PM2.5 pode penetrar facilmente nos pulmões e, a partir daí, entrar na corrente sanguínea. Dessa forma, pode passar para diferentes órgãos e causar inflamação, condição que favorece a resistência à insulina.

Mulher jovemDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionO pâncreas é um dos órgãos mais importantes para controlar o nível de insulina no sangue

Com o tempo, pode afetar o pâncreas, que não consegue bombear insulina suficiente para compensar. É então que o diabetes aparece.

“A exposição a poluentes do ar pode levar a alterações significativas no sistema nervoso, estresse devido à oxidação, inflamação, estresse do retículo endoplasmático, morte celular programada e levar a alterações metabólicas na homeostase da glicose e insulina, incluindo intolerância à glicose e menor sensibilidade à insulina”, diz o texto.

As consequências das partículas PM2.5 podem ser muito piores em países e cidades com altos níveis de poluição atmosférica, e onde o controle da emissão de CO2 não existe ou não é respeitado.

No México, as cidades de Monterrey, Toluca, Salamanca, León, Irapuato, Silao, Puebla, além da capital Cidade do México, excedem bastante os níveis de PM2.5 recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), afirma um relatório de 2016.

Ainda segundo a OMS, existem 420 milhões de pessoas no mundo com diabetes, a grande maioria do tipo 2. No caso do México, 14% da população sofre com a doença, que também é a principal causa de morte entre os mexicanos, segundo a organização.

No Brasil, o número de pessoas com os diabetes tipo 1 e 2 subiu 61,8% na última década, de acordo com o Ministério da Saúde.

O método

Estudos anteriores tentaram vincular a poluição e o diabetes tipo 2, mas nenhum foi tão extenso quanto esse.

Para chegar às conclusões, os cientistas examinaram 1,7 milhão de americanos durante oito anos, período em que monitoraram seu índice de massa corporal.

As informações obtidas foram cruzadas com os dados das partículas encontradas no ar, coletado pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em inglês) e pela Nasa, agência espacial americana.

Nasa lança sonda que vai ‘tocar o Sol’ e deve marcar a história da ciência

A missão da Nasa, a agência espacial americana, em direção ao sol finalmente foi iniciada na madrugada deste domingo, depois de ser adiada três vezes.

O objetivo da sonda que decolou sem imprevistos nesta madrugada é inédito: a nave Parker Solar Probe (PSP) será o primeiro objeto construído por um humano a “tocar” o Sol.

O “tocar”, aqui e nos cuidadosos comunicados da Nasa, vai sempre entre aspas porque a engenhoca vai, tecnicamente, apenas se aproximar muito da corona solar. Trata-se da parte mais externa da atmosfera do Sol, que começa a 2,1 mil quilômetros da superfície da estrela do Sistema Solar – e não tem um limite preciso. A corona é aquela aura, composta de plasma e com temperatura que chega a 2 milhões de graus Celsius, que a gente consegue ver quando há um eclipse.

Chegará mais perto do Sol do que qualquer outra missão anterior”, diz o astrofísico Adam Szabo, um dos cientistas que integram a missão, em conversa com a BBC News Brasil. De acordo com o cronograma da agência espacial americana, daqui a sete anos, a PSP estará no ponto mais próximo da estrela já alcançado por uma espaçonave terrestre: 6,3 milhões de quilômetros da superfície solar.

Se o número parece grande, é preciso pensar nas escalas astronômicas. A distância entre a Terra e o Sol, por exemplo, é de 150 milhões de quilômetros. Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol, está a 58 milhões de quilômetros do astro. A atual recordista, a nave Helios 2, chegou, em 1976, a 43,5 milhões de quilômetros do Sol.

Para que servirá a missão

A ousada missão espacial, uma das mais complexas de toda a história de seis décadas da Nasa, deve custar cerca de US$ 1,5 bilhão e, esperam os cientistas, ajudar a responder uma série de dúvidas astronômicas.

Parker Solar Probe (PSP)Direito de imagemJOHNS HOPKINS UNIVERSITY APPLIED PHYSICS LABORATOR
Image captionA nave Parker Solar Probe (PSP) será o primeiro objeto construído por um ser humano a “tocar” no Sol

Com os dados obtidos pela PSP, os pesquisadores querem conseguir compreender melhor a origem do vento solar – em termos práticos, essa informação pode ajudar a proteger o funcionamento dos nossos satélites artificiais, tão afetados por tais fenômenos. Vento solar é o nome que se dá para o fluxo de partículas com carga elétrica, como prótons, elétrons e íons, que o Sol irradia pelo Sistema Solar.

“Esta será a primeira vez que vamos estudar, de perto, nossa estrela Sol. Entender como funciona a corona e o vento solar vai nos ajudar a proteger nossa civilização, cada vez mais dependente de tecnologia e satélites de comunicação”, contextualiza o físico e engenheiro brasileiro Ivair Gontijo, cientista da Nasa, à BBC News Brasil. “Variações no vento solar podem causar sérios danos a esses satélites.”

“Esperamos com essa missão entender como a corona acelera o vento solar. Quem sabe poderemos no futuro prever quando o vento solar coloca nossos satélites em risco”, completa Gontijo.

Parker Solar ProbeDireito de imagemNASA/JOHNS HOPKINS APL/ED WHITMAN
Image captionMembros da equipe levam a nave para um teste

Os cientistas também querem entender por que a corona, mesmo mais distante do núcleo solar, é tão mais quente do que a superfície – 2 milhões de graus Celsius, contra uma variação de 3,7 mil a 6,2 mil graus.

A PSP ainda deve trazer avanços à astrofísica. Com uma observação tão próxima do Sol, deseja-se obter dados que ajudem a compreender melhor como as estrelas funcionam.

“De forma mais geral, entendendo o Sol, estaremos também entendendo como funcionam as outras estrelas”, ressalta Gontijo. “Por isso esta missão trará resultados tanto práticos, para protegermos nossos satélites, quanto científicos, na área de astrofísica estelar.”

Objetivamente, conforme enfatiza o astrofísico Szabo, são três as questões que a missão deve responder. “Um: por que a corona é significativamente mais quente do que a superfície do Sol. Dois: por que o vento solar se afasta do sol a velocidades supersônicas. Três: como as partículas energéticas do sol se aceleram à velocidade próxima à da luz”, pontua.

Como funcionará a aproximação do Sol

“A missão Parker Solar vai se aproximar do Sol como nenhuma outra antes e um escudo protetor de quase 12 centímetros de espessura, feito de composto de carbono, vai protegê-la do intenso calor e da radiação presente”, explica o físico brasileiro.

De acordo com informações da Nasa, a nave PSP pesa 612 quilos e mede 3 metros de comprimento por 2,3 metros de largura. O tal escudo térmico mede 1,3 centímetro de espessura e foi feito com um composto de altíssima tecnologia. E, de acordo com o cientista Szabo, o desenvolvimento dessa proteção foi um dos pontos mais difíceis de todo o projeto. A nave será lançada pelo foguete Delta IV Heavy.

O segredo da aproximação solar da PSP está em Vênus. Na realidade, segundo o projeto dos cientistas, é a gravidade do planeta vizinho que irá “arremessar” a nave, que deve desenvolver uma órbita em espiral, aproximando-se cada vez mais do Sol.

Parker Solar Probe (PSP)Direito de imagemNASA/JHUAPL/ED WHITMAN
Image captionA nave é colocada numa câmara de vácuo termal para simular as condições que enfrentará

Esse primeiro empurrãozinho de Vênus irá ocorrer em 3 de outubro, quando a PSP se aproximar do planeta. Então, no dia 6 de novembro, a nave vai realizar a primeira aproximação do Sol: estará a 24 milhões de quilômetros do astro, ou seja, já terá batido o recorde de artefato humano que mais se acercou do Sol em toda a história.

Essas órbitas vão se tornar recorrentes. E, então, conforme o cronograma desenvolvido pelos cientistas da Nasa, entre dezembro de 2024 e junho de 2025, em suas últimas voltas ao redor do Sol, é que a nave chegará aos pontos de maior aproximação.

E vai bater ainda outro recorde: terá embalado a 700 mil quilômetros por hora e se tornará o objeto mais rápido já fabricado pelo ser humano – para efeitos de comparação, o planeta Terra viaja a 1 milhão de quilômetros por hora.

O nome da nave

A Parker Solar Probe recebeu esse nome em homenagem ao astrofísico americano Eugene Parker, hoje com 91 anos. Ele foi o primeiro cientista a prever a existência do vento solar.

Em 1958, ele apresentou uma teoria mostrando como as altas temperaturas da corona solar acabavam disseminando partículas energéticas, formando o fenômeno, depois comprovado.