Os tesouros que o aquecimento global destruirá.

Se a memória se perder, a história será um relato vazio. Restarão palavras soltas, fios desconexos. A mudança climática ameaça o patrimônio cultural do mundo. Compromete a lembrança e sua narrativa. Nada parece estar a salvo. Sítios arqueológicos, itens enterrados, restos de naufrágios, cidades, cemitérios, castelos, templos. A lista dos lugares em perigo é um catálogo que exibe a potencial destruição cultural do planeta. Mas o terrível é que o ser humano não poderá salvar todos eles. Centenas, talvez milhares, serão perdidos. O homem, então, deverá decidir o que abandonar para sempre e o que conservar. E sozinho, frente a si mesmo, avaliará as consequências de seus atos. “Quando uma localização se perde, a memória do lugar e da gente que lá viveu começa a se desvanecer”, argumenta a arqueóloga norte-americana Sarah Miller.

Esse fadeout, essa memória vazia, foi precipitado pelo aquecimento global. Talvez o grande medo com o qual o planeta convive. Porque é cada vez mais frequente e devastador. Basta folhear a hemeroteca. O fogo que abrasou parte da Europa em 2008 pôs em perigo o espaço arqueológico de Olímpia (Grécia); dois anos mais tarde, inundações, de novo na Europa ocidental, atingiram Roma, e durante 2013 uma onda de chuvas torrenciais destruiu parte do legado histórico do Estado indiano de Uttarakhand. Todas essas catástrofes foram geradas pela mudança climática. “A ameaça contra o patrimônio do planeta é muito séria”, admite Peter Debrine, assessor do Programa Mundial para o Patrimônio da Humanidade, da Unesco. “Os locais marinhos e próximos às costas são particularmente vulneráveis à elevação do nível dos mares, à erosão e ao aumento da temperatura da água”.

Templos egípcios

Mas não só a água fere, às vezes até a areia mata. No Egito, o templo de Nadura, dentro do oásis de El Kharga, está cada vez mais próximo de se tornar – verdadeiramente – uma ruína. As altas temperaturas, os fortes ventos e a abrasão deterioraram quase metade de sua estrutura. “Se a perda continuar nesse ritmo, as inscrições, os símbolos e os hieróglifos desaparecerão completamente em 2150”, advertiu em uma entrevista recente Hossam Ismael, professor de climatologia da Universidade de Assiut (Egipto).

Quando o ser humano se desentende simultaneamente com a temperatura, a água e a terra, o resultado é devastador. Apenas na Flórida a elevação do nível do mar em dois metros – que alguns estudos preveem para dentro de um ou dois séculos – afetaria 35.000 espaços que fazem parte do seu patrimônio cultural e um número semelhante estaria em risco por causa de tempestades marinhas e furacões. O detalhamento dessa cifra mostra a extensão do problema: 4.000 sítios arqueológicos, 800 cemitérios históricos e 30.000 estruturas e edifícios. Mas se mergulhamos nessas águas, veremos que a alteração do clima também afeta outros tesouros submarinos. “Muita gente acredita que, como os naufrágios ou os sítios arqueológicos já estão submersos, não serão afetados pelo aquecimento global. Mas o aumento da temperatura do oceano incrementa a salinidade e a migração dos pastos marinhos que estabilizam os sítios arqueológicos”, descreve Sarah Miller. Além disso, vários naufrágios que aconteceram na Flórida correm o risco de se perder. Por exemplo, os restos da frota capitaneada em 1559 por Tristán de Luna em Pensacola, ou o navio de guerra francês La Trinidad, que afundou em 1565, em Cabo Canaveral.

As áreas costeiras

Mas se o passado foi uma tragédia, o futuro é um assassinato. David Anderson, professor de Antropologia da Universidade do Tennessee, publicou um ensaio que prevê o desaparecimento de 20.000 sítios arqueológicos em nove Estados do sudoeste dos Estados Unidos. É apenas uma espera de tempo e espaço. Isso acontecerá no que resta de século e com um aumento de apenas um metro do nível do mar. Se levarmos essas estimativas à escala global, a magnitude do dano se revela. “Se as projeções estiverem corretas, podemos perder nos próximos anos uma grande parte do registro arqueológico e histórico da vida humana em áreas costeiras e será necessário, é claro, realojar um grande número de pessoas que vivem nessas regiões”, prevê David Anderson. Isso afetará os vivos e os mortos. Cerca de 7.000 cemitérios em 15 Estados podem ser inundados por essas águas em ascensão.

Turistas na praça de São Marcos, em Veneza, durante as inundações causadas pela ‘acqua alta’.© Fornecido por El Pais Brasil Turistas na praça de São Marcos, em Veneza, durante as inundações causadas pela ‘acqua alta’.

A paisagem é uma neblina e essa escuridão se estende da Europa à Mongólia. “No Velho Continente, o patrimônio mais afetado por episódios de chuvas intensas são os edifícios históricos de madeira que fazem parte da essência da arquitetura escandinava, centro-europeia e da Europa de Leste”, avalia May Cassar, professora de patrimônio e sustentabilidade do University College de Londres. Longe da Europa, nas terras outrora conquistadas por Genghis Khan, a mudança climática se juntou ao saque para ameaçar a identidade da Mongólia. O agravamento das condições climáticas encurralou as populações nômades. Com a diminuição de seus recursos ancestrais, muitos recorrem à pilhagem de milhares de enterros antigos que estão espalhados pela estepe. São simples círculos de pedra que, quase sempre, contêm corpos humanos e ossos de animais. Mas outros, mais raros, escondem joias, pedras preciosas e ouro.

Ninguém está a salvo da rapina ou da mudança climática. Na Ilha de Páscoa (Chile) os moais milenares (1500-1250 a. C.) começam a claudicar devido à erosão costeira e às inundações, a Estátua da Liberdade (Nova York) teve sua pele de cobre açoitada pelo furacão Sandy e Veneza está enclausurada há anos entre a opressão dos turistas e o fenômeno da acqua alta. E o que será da Espanha? “Sua vulnerabilidade vive unida à falta de chuvas e à desertificação”, adverte Peter Debrine. Isso foi sentido nos Parques Nacionais de Doñana e de Tablas de Daimiel; foi sentido na fragilidade criada pela irresponsabilidade do homem.

Toupeiras colocam Stonehenge em perigo

Monumento neolítico de Stonehenge.© Fornecido por El Pais Brasil Monumento neolítico de Stonehenge.Toupeiras e coelhos se tornaram o principal inimigo de Stonehenge, o famoso monumento neolítico do Reino Unido. O aumento da temperatura no inverno atraiu esses animais, e sua compulsão por escavar túneis ameaça a estabilidade da estrutura. Não é uma anedota, mas um sinal de alerta. O organismo público Historic Environment Scotland (HES), que supervisiona os 340 castelos, abadias, ruínas e sítios neolíticos mais importantes da Escócia, identificou 28 áreas de tal fragilidade que estão “sofrendo um nível de risco inaceitável”. Uma preocupação que veio para ficar nessas terras. “No Reino Unido, a mudança climática já afeta edifícios, enterros arqueológicos e o entorno meio ambiental de parques e jardins de importância histórica”, diz Tony Weighell, assessor do Governo britânico para essas questões. Essa natureza ameaçada é a mesma que os países prometeram proteger. “O fato de que esses lugares excepcionais estejam cada vez mais afetados pela mudança climática não só indica a gravidade do problema, mas também o que está em jogo, se os Governos não tomarem medidas em nível mundial”, alerta Peter Shadie, assessor do Programa Patrimônio Mundial da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A cultura e a memória se queixam, o ser humano as ignora.

It’s the less glamorous side but it’s the important one.

The upfront costs to cover mining hardware is generally the most significant expense for any new mining farm. Leia mais

Como o pré-sal poderia ajudar o Brasil a usar menos diesel.

Com número recorde de empresas inscritas, mais uma área do pré-sal vai a leilão nesta quinta-feira. A 4ª rodada de partilha de produção colocou quatro campos em oferta, dois na bacia de Santos, dois na bacia de Campos, uma área de cerca de 4,2 mil km², o equivalente a três vezes o tamanho do município de São Paulo.

O aumento do preço do petróleo no mercado internacional e a alta produtividade das reservas brasileiras atraíram 16 petroleiras, entre as quais gigantes como Shell, Statoil e Exxon Mobil.

Um recurso do pré-sal que não é chamariz para essas multinacionais – o gás natural -, contudo, poderia ser aliado importante para o Brasil reduzir a dependência do diesel e aumentar a participação de fontes renováveis em sua matriz energética no médio e longo prazo.

O gás natural está associado ao óleo nas áreas de exploração, dissolvido ou como uma capa sobre os reservatórios. O menos poluente entre os combustíveis fósseis, na Europa e nos Estados Unidos ele vem sendo cada vez mais usado como combustível de caminhões e de navios – neste último caso, como um caminho para que os países cumpram as metas de redução da emissão de gases poluentes pelo transporte marítimo.

No Brasil, o gás natural é usado para consumo doméstico, em setores industriais e nas usinas termelétricas. Ele também poderia ser aproveitado, entretanto, como combustível alternativo para os ônibus nas grandes metrópoles do país e para dar flexibilidade à geração eólica e solar – ou seja, como “backup” para fornecer energia quando essas fontes, que são intermitentes, não estivessem produzindo -, ressaltam especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

GasodutoDireito de imagem GETTY IMAGES
Image captionInfraestrutura para distribuição do gás explorado pelas plataformas marítimas exige pesados investimentos

Até 2026, justamente por causa da exploração do pré-sal, a oferta de gás natural na malha integrada de gasodutos do país deve crescer quase 40%, de 43 milhões de metros cúbicos por dia para 59 milhões, conforme as estimativas feitas pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) com base nas reservas já conhecidas.

Apesar do aumento, a diversificação do uso do gás natural enfrenta obstáculos que vão desde a baixa demanda interna, que dificulta a criação de um mercado com preços que atraiam empresas para a exploração do combustível, à falta de infraestrutura de gasodutos para a distribuição.

Caminhões, gás liquefeito e os ‘corredores azuis’

“O desenvolvimento do pré-sal nos conduz a rápidos e materiais excedentes de gás natural”, diz Edmilson Moutinho dos Santos, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP).

“Trata-se de um gás difícil de monetizar, por questões logísticas, mas que representa uma oportunidade real de valorização no mercado doméstico, tornando nossa matriz energética muito mais sustentável e em linha com as demandas globais do século 21”, completa.

O especialista estuda o conceito de “corredores azuis”, rotas para veículos pesados, em expansão na Europa, que garantem autonomia para abastecimento de veículos movidos a GNC, gás natural veicular comprimido, ou GNL, gás liquefeito.

Parque eólico em Campo Formoso, na BahiaDireito de imagem JOÃO RAMOS/ASCOM SDE
Image captionGás natural poderia também ser usado para complementar geração por fontes renováveis, aumentando a participação dessas modalidades na matriz energética

O uso do gás natural como combustível alternativo ganhou fôlego nos últimos dez anos, afirma Adriano Pires, sócio-diretor da Câmara Brasileira de Infraestrutura (CBIE), graças, em parte, à redução nos preços – reflexo, por sua vez, da exploração de gás de xisto (um tipo de gás “não convencional”, que não está atrelado às reservas de petróleo) nos EUA e da ampliação do uso da versão líquida do gás natural, o GNL, que não depende de gasoduto para ser transportado.

O GNL, aliás, vem sendo cada vez mais utilizado em navios, diante da pressão internacional para a fixação de metas mais agressivas pelo transporte marítimo para redução de emissão de gases poluentes.

“O gás natural é visto hoje como um caminho de transição para matrizes energéticas mais limpas, enquanto não se desenvolvem, por exemplo, as baterias que vão armazenar a produção por energia eólica”, ele acrescenta.

Ele não possui enxofre na composição e não gera fuligem quando queima, explica o professor de planejamento energético da Coppe-UFRJ Alexandre Szklo. “Não existe ‘queima limpa’ em combustível fóssil, mas a emissão de poluentes é menor.”

Coleta de lixo e ônibus urbano

Em uma de suas pesquisas, Moutinho, do Instituto de Energia e Ambiente da USP, simulou a troca de 30 caminhões de coleta de lixo a óleo diesel por GNV na cidade de Sorocaba, em São Paulo. Levando em conta as soluções tecnológicas já disponíveis no país, os resultados sinalizaram uma redução das emissões anuais de CO2 pela frota em 469 toneladas e a diminuição da emissão de poluentes como monóxido de carbono em mais de 95%.

Szklo, da Coppe-UFRJ, também vê potencial para substituição do diesel na frota de ônibus urbano, em áreas em que já exista malha de distribuição de gás, como a região Sudeste. Ele afirma que a alternativa já foi estudada na cidade do Rio de Janeiro, mas não foi para frente porque a mudança para o combustível a gás dificultaria a venda dos veículos no fim do seu ciclo de vida.

Interior de um ônibusDireito de imagCESAR OGATA/SECOM
Image captionPara especialistas, gás poderia substituir o diesel, por exemplo, em parte do transporte público urbano e em serviços como a coleta de lixo

Depois de “aposentados”, os ônibus usados para transporte urbano na capital carioca são vendidos para cidades do interior – que, nesse caso, não teriam acesso à rede de distribuição de gás para abastecer.

“A questão do diesel é maior que uma bala de prata”, diz o especialista, que acha difícil que o combustível mais usado no Brasil seja largamente substituído no curto ou médio prazo.

O transporte de carga, por exemplo, movimenta em geral cargas pesadas, grandes volumes de produto com baixo valor agregado, como commodities. A margem de lucro, portanto, é pequena, e menor ainda para os caminhoneiros autônomos, responsáveis por 30% do total do frete. O espaço para investir em caminhões menos poluentes, portanto, é muito mais limitado.

Os navios que saem dos portos do país, por sua vez, também transportam produtos de baixo valor agregado – ou seja, é preciso ter volume para que o frete seja financeiramente rentável. Assim, à medida que os tanques para gás, maiores do que aqueles usados para o diesel, ocupariam espaço que poderia ser da soja ou minério de ferro, esse tipo de alternativa acaba se tornando menos atraente.

“O diesel é a nossa principal matriz energética. O Brasil consome mais diesel do que eletricidade”, destaca Szklo, para ilustrar o tamanho do desafio de reduzir de forma significativa a dependência do combustível que desencadeou a greve de caminhoneiros no último mês de maio.

O gás do pré-sal

De forma geral, parte do gás explorado no subsolo oceânico é reinjetada nos reservatórios, porque facilita a extração de óleo, uma parcela é consumida na plataforma, outra é perdida ou queimada e parte é disponibilizada para consumo.

No pré-sal, uma parcela maior do gás tem sido reinjetada porque faltam rotas de escoamento das plataformas “offshore”, no oceano, para a malha “onshore”, no continente, diz Szklo, da Coppe-UFRJ.

Parte do problema de infraestrutura, dizem Giovani Machado e Marcos Frederico, superintendentes da diretoria de estudos do petróleo, gás e biocombustíveis da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), se deve ao custo elevado para construir a rede de gasodutos com centenas de quilômetros que ligaria o mar ao continente.

Nos Estados Unidos e na Europa, como o gás é usado desde a década de 50 e 60 para calefação nas regiões mais frias, a malha de distribuição que passou a ser usada, por exemplo, para abastecer os caminhões, já estava disponível e “amortizada” – ou seja, os investimentos já haviam sido recuperados -, afirmam os especialistas.

Diante da capacidade limitada do setor público de gastar e da incerteza das empresas que exploram os reservatórios em relação à demanda – ou seja, se elas terão para quem vender o gás que eventualmente decidam explorar -, as vencedoras dos leilões do pré-sal têm pouco incentivo para ampliar a rede de distribuição.

“A infraestrutura não anda porque não tem demanda disposta a pagar por esse serviço”, destacam.

Os reservatórios do pré-sal têm uma proporção maior de gás em relação ao óleo do que os demais campos no país – o combustível, contudo, tem teor mais alto de contaminantes, como o CO2, que precisam ser isolados para que o gás seja comercializado.

Para concorrer com o GNL importado e com o gás barato que vem da Bolívia pelo gasoduto de 3,1 mil km inaugurado em 2010, o gás do pré-sal precisa ter um preço bem mais competitivo do que tem hoje, diz Larissa Resende, do Centro de Estudos de Energia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Energia).

Uma das soluções nesse sentido, ela exemplifica, seria a “ancoragem” em projetos de termelétricas a gás – grandes consumidoras, que garantiriam parte da demanda – e a estocagem subterrânea do combustível, para que ele ficasse mais próximo dos centros consumidores e reduzisse o impacto negativo das oscilações de demanda sobre os preços.

Em paralelo, ela acrescenta, o país precisa de mudanças regulatórias e de formulações de política energética voltadas para fomentar o mercado de gás. O chamado “PL do gás”, o projeto de lei 6407, de 2013, está parado no Congresso.

“Essa abundância de gás que a gente tem no pré-sal só vai ser aproveitada, inclusive como energia de transição para construir uma matriz energética mais limpa, se houver mercado. O Brasil corre o risco de perder uma oportunidade.”

O leilão desta quinta-feira

As últimas rodadas de leilões do pré-sal foram realizadas em outubro do ano passado, quatro anos depois da primeira.

Desde 2016, a Petrobras não precisa mais ser operadora única dos campos do pré-sal – uma lei de 2010 previa que a empresa deveria ter participação mínima de 30% na exploração de todos os blocos em operação.

Com a mudança, a estatal passou a ter direito de preferência sobre as áreas ofertadas. Ou seja, ela tem a prerrogativa de decidir antes do leilão se deseja ou não ser operadora e de confirmar esse interesse no dia do certame, caso a oferta vencedora feita pelas empresas que farão parte do consórcio esteja acima de sua capacidade financeira.

Na 4ª rodada, a Petrobras exerceu direito de preferência em três dos quatro campos em oferta – Dois Irmãos, Três Marias e Uirapuru -, com 30% de percentual mínimo de exploração requerido.

As vencedoras do leilão serão aquelas que oferecerem o maior excedente em óleo para a União. O regime, dito de partilha e instituído em 2010, é diferente do aplicado para as demais áreas produtoras de petróleo do país, o de concessão – que seleciona as empresas a partir dos valores de bônus que elas oferecem ao governo.

A 5ª rodada de leilões está prevista para o próximo mês de setembro e a 6ª, para o primeiro semestre de 2019.

Os mares da Ásia, lixeiras de plástico do planeta.

No Vietnã, as sacolas plásticas cobrem os manguezais, na Tailândia uma baleia morreu depois de engolir 80 dessas sacolas e as ilhas indonésias às vezes perdem seu aspecto paradisíaco.

Na Ásia, os efeitos da poluição por plástico são dramáticos.

China, Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietnã lançam por ano mais de quatro milhões de toneladas de plástico nos mares do planeta, isto é, metade da quantidade total, segundo a ONG Ocean Conservancy.

Se nada for feito para evitá-lo, até 2025 haverá 250 milhões de toneladas de resíduos plásticos nas águas mundiais, asseguram os pesquisadores.

“Estamos em uma crise de poluição por plástico, vemos em todos os lugares, em nossos rios, em nossos oceanos”, aponta Ahmad Ashov Birry, ativista da ONG Greenpeace na Indonésia, coincidindo com o Dia Mundial do Meio Ambiente, neste 5 de junho.

China, Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietnã estão também entre os países com maior crescimento na Ásia, com economias baseadas em grande medida na produção de plástico. Isto e a falta de um sistema de coleta e reciclagem adequado causam uma poluição significativa.

– Efeitos sobre a pesca –

Os habitantes, especialmente os que vivem da pesca, sofrem as consequências da proliferação de plásticos na natureza. No Vietnã, Nguyen Thi Phuong viu como a zona onde trabalhava se tornou um lixão a céu aberto com o passar dos anos.

“Está tão poluído, não é saudável para as crianças”, explica esta mulher ao voltar de sua pesca matinal sob um sol abrasador, envolvida por um cheiro de lixo e peixe.

“Para nós é difícil pegar camarões e peixes”, explica outro pescador, Vu Quoc Viet, que precisa retirar os resíduos de plástico agarrados em suas redes.

No mangue vizinho, um ecossistema frágil de pântanos típico das regiões tropicais, outros pescadores procuram crustáceos no lodo, sem prestar atenção ao mar de resíduos e sacolas de plástico que constitui seu entorno de trabalho.

Um mangue vietnamita coberto de plástico na província de Thanh Hoa© Fornecido por AFP Um mangue vietnamita coberto de plástico na província de Thanh HoaUm informe recente da ONG World Animal Protection aponta o risco das redes de pesca abandonadas no mar, que fazem parte da poluição por plástico.

Na Tailândia, uma baleia morreu no início de junho. Os veterinários encontraram mais de 80 sacolas de plástico em seu corpo, um exemplo recente das consequências nefastas desta poluição que é apenas “a ponta do iceberg”, segundo John Tanzer, da ONG WWF.

“A poluição de nossos oceanos é tão grande que afeta todos os níveis do ecossistema, dos animais menores até as baleias”, lamenta.

E as micropartículas desses plásticos se desintegram com o passar do tempo e acabam também nas água que milhões de asiáticos bebem diariamente.

A ONG União Internacional para a Conservação da Natureza está realizando um estudo mundial mundial sobre os efeitos dessas partículas, cujas consequências para a saúde ainda são desconhecidas.

– Coleta imperfeita –

O planeta plástico: A produção e utilização do plástico no mundo.© Fornecido por AFP A produção e utilização do plástico no mundo.Na China, Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietnã, menos de metade dos resíduos é coletada corretamente.

Em uma sociedade de consumo acostumada ao plástico, a educação dos cidadãos asiáticos, que ainda não adotaram as sacolas reutilizáveis nos supermercados, é uma das mudanças essenciais para conseguir uma melhora da coleta de lixo, segundo os especialistas.

China, a segunda economia mundial, proibiu no ano passado a importação de resíduos plásticos, rejeitando ser o lixão do mundo. Mas a imensa maioria dos resíduos públicos no país são produzidos por sua própria população.

Poluição, pesca excessiva e mudanças climáticas ameaçam o Titicaca

WhatsApp Image 2018-06-11 at 13.19.20A poluição, a pesca excessiva e as mudanças climáticas estão acabando com a saúde das águas do lago Titicaca, compartilhado por Bolívia e Peru, alerta o biólogo Xabier Lazzaro, estudioso do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) da França.

Como qualquer lago que está perto de um centro urbano, o principal problema é a poluição. Além disso, há as mudanças climáticas, que “aqui no altiplano são mais fortes”, diz o especialista à AFP durante uma visita ao lago no fim de semana passado.

O governo boliviano dedicará 86 milhões de dólares, em cooperação com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a União Europeia, para ampliar uma usina de tratamento de águas em El Alto e construir mais uma dezena em populações ribeirinhas, disse o ministro boliviano do Meio Ambiente e Água, Carlos Ortuño.

A este investimento, o governo francês somará outros 115 milhões de dólares, que dedicará à construção de infraestrutura de saneamento, em particular na Baía de Cohana, na desembocadura do rio Katari, anunciou o diretor da Agência Francesa para o Desenvolvimento (AFD), Rémy Rioux.

Com 8.500 km2 de superfície, e situado 3.500 metros acima do nível do mar, o Titicaca é o segundo maior lago da América do Sul, depois do de Maracaibo, na Venezuela.

Por enquanto, a poluição se concentra principalmente em lugares próximos a grandes zonas urbanas, como a cidade boliviana de El Alto, vizinha de La Paz, e as peruanas Juliaca e Puno.

No lado boliviano, o desastre é especialmente crítico na chamada Baía de Cohana, onde é descarregada a maior parte das águas residuais geradas por El Alto, cidade com mais de 800.000 habitantes.

Técnicos do IRD também encontraram “concentrações bastante anormais” de antibióticos que chegam ao lago a partir de El Alto, através das águas do rio Katari.

Esses resíduos medicinais podem afetar “a reprodução dos peixes, mudar a proporção entre macho e fêmea e afetar inclusive os humanos. Além disso, aqui a radiação solar muito forte provoca mutações nos organismos”, explica.

As mudanças climáticas também alterarão a temperatura da água do lago, alerta. Se a temperatura do planeta sobe em média 2 graus, a do Titicaca sobe 4, por sua altitude, o que antecipa um cenário futuro “terrível”, diz o especialista.

As consequências afetarão as cadeias alimentares, em particular o plâncton, os micro-organismos e o ciclo de reprodução dos peixes.

O uso de redes para a pesca maciça no Titicaca é também uma ameaça para a sobrevivência da vida no lago, alertam os especialistas.

Temer aprova redução de emissões de carbono nos próximos dez anos.

O presidente Michel Temer aprovou hoje (5) as metas anuais de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa para os próximos dez anos. Dessa forma, o governo espera um maior uso dos biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel, menos poluentes, para alcançar a meta. Isso traria, segundo o presidente, menor dependência do mercado externo de petróleo e consequente redução no preço dos combustíveis.

“Vamos reduzir de 11,5% para 7% a dependência externa de combustíveis. O Brasil estará menos exposto à variação internacional do preço do petróleo e às flutuações cambiais. Portanto, quem sabe, num futuro muito próximo, consigamos evitar acontecimentos como este que se verificou na semana passada”, disse o presidente, referindo-se a greve dos caminhoneiros, deflagrada por conta dos elevados preços do diesel. O movimento provocou uma crise no abastecimento no país, inclusive com falta de combustíveis e longas filas em postos.

As metas propostas pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) compõem a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio). Elas reduzem 10% nas emissões de carbono na matriz de combustíveis do país, passando dos atuais 74,25 gramas de gás carbônico por megajoule (g CO2/MJ) para 66,75 g CO2/MJ, o que corresponde à retirada de 600 milhões de toneladas de carbono da atmosfera até 2028.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente (MME), o estabelecimento da meta provocará investimentos de R$ 1,3 trilhão em expansão da produção de biocombustíveis nos próximos dez anos e redução de, pelo menos, 0,84% do preço dos combustíveis ao consumidor ao final do período.

“[A aprovação das metas são] exatamente para dar o testemunho do compromisso do governo brasileiro com a qualidade de vida no mundo, com a possibilidade de baixar o preço do combustível, que às vezes nos captura, como recentemente nos capturou. São medidas que não terão efeito amanhã, mas nos próximos dez anos”, disse o ministro de Minas e Energia, Moreira Franco.

Áreas de Preservação

O presidente também aproveitou o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado hoje, para anunciar a criação de duas áreas de preservação ambiental, uma na Amazônia e outra na Bahia. “Acabo de assinar duas novas áreas de preservação: a Reserva Extrativista do Baixo Rio Branco, na Floresta Amazônica, e um refúgio de vida silvestre para a ararinha azul, na Bahia. Antes extinta em seu habitat, estamos reintroduzindo a ararinha na natureza.”

Tabela das metas de emissão de carbono

Ano 2018

(a partir de24/06/18)

2019 2020 2021 2022 2023 2024 2025 2026 2027 2028
Intensidade de Carbono (IC) Projetada(gCO2/MJ) 73,55 73,51 72,83 72,55 72,34 71,81 70,62 69,49 68,39 67,49 66,75
Redução da IC Pretendida

1,0% 1,9% 2,3% 2,5% 3,3% 4,9% 6,4% 7,9% 9,1% 10,1%

Poluição do plástico é desafio para o Dia Mundial do Meio Ambiente

Todos os anos, desde 1972, 5 de junho é celebrado como o Dia Mundial do Meio Ambiente. A Organização das Nações Unidas (ONU) anualmente escolhe um tema relacionado às questões mais prementes da atualidade e este ano o mote é Beat Plastic Pollution (Combater a Poluição Plástica, em tradução livre).

A poluição causada pelo descarte de objetos de plástico é um dos grandes desafios da atualidade. De acordo com a ONU, são necessários pelo menos 450 anos para que uma garrafa de plástico se decomponha e desapareça do meio ambiente.

ONU diz que são necessários 450 anos para que uma garrafa de plástico se decomponha e desapareça do meio ambiente – Divulgação

Em todo o mundo, 1 milhão de garrafas de plástico são compradas a cada minuto. Todos os anos são usadas até 500 bilhões de sacolas plásticas descartáveis.

Apenas na última década foi produzido mais plástico do que em todo o século passado. Todos os anos, são utilizados 17 milhões de barris de petróleo para produzir garrafas plásticas. No total, metade do plástico que utilizado é de uso único.

Levando-se em conta que a taxa média global de reciclagem desses produtos é de 25%, isso significa um volume enorme de lixo plástico descartado nos oceanos.

Estima-se que pelo menos 8 milhões de toneladas de lixo plástico vão parar nos mares anualmente, onde sufocam os recifes de corais e ameaçam a fauna marinha vulnerável.

Plástico prejudica aves marinhas

Até 2050, 99% das aves marinhas terão ingerido plástico. O lixo prejudica mais de 600 espécies marinhas, 15% delas em extinção.

De acordo com a campanha da ONU Mares Limpos (Clean Seas), outro grande vilão dos mares são os microplásticos, partículas que medem menos de 5mm e que estão presentes também em cosméticos e produtos de higiene. Pelo menos 51 trilhões de partículas de microplásticos já estão nos oceanos.

A campanha Beat Plastic Pollution, que tem a Índia como país anfitrião este ano, convida as pessoas a agirem, individual ou coletivamente, para combater a poluição plástica.

São exemplos práticos como parar de usar canudinhos e talheres de plástico, levar sua própria caneca para o trabalho, pressionar as autoridades locais para melhorar a maneira como administram o lixo da sua cidade, utilizar sacolas de tecido ao fazer as compras e recolher lixo plástico que encontrar nas praias, florestas e cachoeiras que for visitar, entre outras iniciativas.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou – em um comunicado – o apelo pelo combate à poluição plástica.

“Nosso mundo é inundado por resíduos plásticos prejudiciais. Todos os anos, mais de 8 milhões de toneladas acabam nos oceanos. Os microplásticos nos mares agora superam as estrelas da nossa galáxia. De ilhas remotas ao Ártico, nada é intocado. Se as tendências atuais continuarem, até 2050 nossos oceanos terão mais plástico do que peixes”.

Iniciativa peruana

No Peru, uma campanha de reciclagem inovadora transformou um milhão de garrafas plásticas em milhares de ponchilas (combinação das palavras em espanhol “poncho” e “mochila”), que são mochilas com um poncho embutido.

Os itens foram projetados para proteger as crianças mais pobres dos Andes, muitas das quais devem viajar vários quilômetros por dia, muitas vezes em condições adversas, para chegar à escola. As ponchilas são feitas, cada uma, de 80 garrafas plásticas recicladas.

“Com essa iniciativa, estamos recuperando muito plástico que pode acabar em aterros sanitários, lixões ou nos oceanos”, diz Miguel Nárvaez, chefe de responsabilidade social e empresarial da Cencosud, uma rede de supermercados e uma das empresas que lideram a campanha.

O projeto começou em 2016, quando algumas empresas se uniram para reduzir a evasão escolar nos planaltos dos Andes devido às temperaturas extremas e às longas distâncias que as crianças precisam percorrer para chegar à escola.

As empresas convidaram os cidadãos a apoiar a iniciativa recolhendo suas garrafas de plástico durante o verão, quando o consumo está alto.

Em 2017, o projeto produziu 6.000 ponchos; outros 7.000 já foram feitos este ano. Os itens foram entregues às crianças nas províncias de Puno, Cusco, Arequipa, Huancavelica, Ayacucho e Apurímac antes do início do ano letivo.

No Peru, 18 mil toneladas de resíduos são gerados todos os dias, dos quais 10% são de plástico e muito pouco é reciclado.

O governo peruano está patrocinando um projeto de lei no Congresso para impulsionar a economia circular, reduzindo o consumo de plásticos e promovendo o uso de materiais reciclados.

Fonte: http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2018-06/acabar-com-poluicao-do-plastico-e-tema-do-dia-mundial-do-meio-ambiente

 

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